sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A sabedoria da mãe natureza!

Imagine você que a natureza deu uma falhada, resolveu mudar o curso das coisas e ao invés de as pessoas nascerem bebês elas passaram a nascer adolescentes. Não vamos pensar na inviabilidade da coisa: você ali, de pernas abertas, respirando cachorrinho e fazendo força para ejetar um menino de bigode ralo e um metro e setenta.
Aconteceu. Ao invés de ele nascer roxinho e com cara de joelho, ele já veio de gel e topete rockabilly, com uma camiseta da Abercrombie. Mas nasceu sem saber nada ainda, só com a personalidade de um adolescente. Não chorou quando veio ao mundo: só deu uma sonora bufada que fez ventar o seu cabelo suado pela força que fez ao parir.
É teu filho, é teu momento com ele. O pai filmando o nascimento e você ali, vertendo lágrimas de emoção, tenta dar um beijinho nele, mas ele vira a cara. Ok, você pensa, é um momento difícil vir ao mundo. Você compreende e em uma nova tentativa de acariciar seus cabelos, ele tira a sua mão: “Agora não, mãe!”. Que lindo! Ele já sabe falar e você nem se atentou para o tamanho do problema que será isso.
Ele ainda está sujo de placenta e você o manda para o primeiro banho. “Já já”, ele responde, sem nem se incomodar com as melecas uterinas.
– Filho, pode ser agora? – você tenta mais uma vez.
– Daqui a pouquinho eu vou.
Trinta minutos depois:
– É que você está sujo…
– Que saco!
E vem outra bufada, seguida de uma batida de porta que acorda todo o andar da maternidade. Se passam quarenta minutos e ele ainda está no banho, gastando a Cantareira.
Você precisa ficar ali por uns dias para se recuperar do parto, mas ele começa a pedir para ir embora. Está impaciente porque quer ir para casa logo mexer na internet.
Aí chega a hora de decidir o nome.
– Acho que vou te chamar de Lucas.
– Não gostei.
– Por que?
– Não sei.
– Eu acho tão bonito.
– Eu não.
– Mas eu quero.
– Mas eu não.
E você desiste. É melhor ser feliz a ter razão e em menos de um dia você já está querendo mais é que se foda, ele escolhe o nome que ele quiser e quando ele quiser.
Então vocês vão para casa e nos próximos dias você não vai mais vê-lo. Ele vai ficar socado no quarto e só vai sair para comer. No terceiro dia de papinha, ele vira os olhos:
– Meu Deus, mas só tem isso?
Você respira fundo, conta até mil, pensa em se matricular na yoga, começar a meditar.
Até que toca a campainha e são seus amigos que chegaram para visitar o seu filho pela primeira vez. Todo mundo feliz pelo nascimento do rebento e lá está ele, socado no quarto de novo.
– Filho, vem ver a tia Marlene, o tio Tonico, o seu primo André, a Vandinha, tá todo mundo aqui pra te ver.
Ele sai de lá por dois minutos com uma puta cara de merda. Bufou de novo, com certeza.
– E aí, Lucas? – o tio Tonico puxa assunto – Para quem você vai torcer no futebol?
– Não sei se vou chamar Lucas ainda e vai depender… Pra quem a minha mãe torce?
– Corinthians! Aqui é todo mundo Corinthians!
E ele imediatamente começa a gritar:
– PALMEIRAAAAAAAAAAAAAAS! PALMEIRAAAAAAAAAAAAS!
Porque, afinal, ele é do contra. Não é que ele te odeie, é que ele nasceu adolescente. E você já está ligando para o médico dois dias depois do parto para marcar uma laqueadura.

(manual da Mãe de Adolescente)

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