Imagine você que a natureza deu uma falhada, resolveu mudar o curso das coisas e ao invés de as pessoas nascerem bebês elas passaram a nascer adolescentes. Não vamos pensar na inviabilidade da coisa: você ali, de pernas abertas, respirando cachorrinho e fazendo força para ejetar um menino de bigode ralo e um metro e setenta.
Aconteceu. Ao invés de ele nascer roxinho e com cara de joelho, ele já veio de gel e topete rockabilly, com uma camiseta da Abercrombie. Mas nasceu sem saber nada ainda, só com a personalidade de um adolescente. Não chorou quando veio ao mundo: só deu uma sonora bufada que fez ventar o seu cabelo suado pela força que fez ao parir.
É teu filho, é teu momento com ele. O pai filmando o nascimento e você ali, vertendo lágrimas de emoção, tenta dar um beijinho nele, mas ele vira a cara. Ok, você pensa, é um momento difícil vir ao mundo. Você compreende e em uma nova tentativa de acariciar seus cabelos, ele tira a sua mão: “Agora não, mãe!”. Que lindo! Ele já sabe falar e você nem se atentou para o tamanho do problema que será isso.
Ele ainda está sujo de placenta e você o manda para o primeiro banho. “Já já”, ele responde, sem nem se incomodar com as melecas uterinas.
– Filho, pode ser agora? – você tenta mais uma vez.
– Daqui a pouquinho eu vou.
– Daqui a pouquinho eu vou.
Trinta minutos depois:
– É que você está sujo…
– Que saco!
– Que saco!
E vem outra bufada, seguida de uma batida de porta que acorda todo o andar da maternidade. Se passam quarenta minutos e ele ainda está no banho, gastando a Cantareira.
Você precisa ficar ali por uns dias para se recuperar do parto, mas ele começa a pedir para ir embora. Está impaciente porque quer ir para casa logo mexer na internet.
Aí chega a hora de decidir o nome.
– Acho que vou te chamar de Lucas.
– Não gostei.
– Por que?
– Não sei.
– Eu acho tão bonito.
– Eu não.
– Mas eu quero.
– Mas eu não.
– Não gostei.
– Por que?
– Não sei.
– Eu acho tão bonito.
– Eu não.
– Mas eu quero.
– Mas eu não.
E você desiste. É melhor ser feliz a ter razão e em menos de um dia você já está querendo mais é que se foda, ele escolhe o nome que ele quiser e quando ele quiser.
Então vocês vão para casa e nos próximos dias você não vai mais vê-lo. Ele vai ficar socado no quarto e só vai sair para comer. No terceiro dia de papinha, ele vira os olhos:
– Meu Deus, mas só tem isso?
Você respira fundo, conta até mil, pensa em se matricular na yoga, começar a meditar.
Até que toca a campainha e são seus amigos que chegaram para visitar o seu filho pela primeira vez. Todo mundo feliz pelo nascimento do rebento e lá está ele, socado no quarto de novo.
– Filho, vem ver a tia Marlene, o tio Tonico, o seu primo André, a Vandinha, tá todo mundo aqui pra te ver.
Ele sai de lá por dois minutos com uma puta cara de merda. Bufou de novo, com certeza.
Ele sai de lá por dois minutos com uma puta cara de merda. Bufou de novo, com certeza.
– E aí, Lucas? – o tio Tonico puxa assunto – Para quem você vai torcer no futebol?
– Não sei se vou chamar Lucas ainda e vai depender… Pra quem a minha mãe torce?
– Corinthians! Aqui é todo mundo Corinthians!
– Não sei se vou chamar Lucas ainda e vai depender… Pra quem a minha mãe torce?
– Corinthians! Aqui é todo mundo Corinthians!
E ele imediatamente começa a gritar:
– PALMEIRAAAAAAAAAAAAAAS! PALMEIRAAAAAAAAAAAAS!
Porque, afinal, ele é do contra. Não é que ele te odeie, é que ele nasceu adolescente. E você já está ligando para o médico dois dias depois do parto para marcar uma laqueadura.

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